domingo, 19 de agosto de 2012

« A REDE GEOMAGNÉTICA DA TERRA »

Carta Magnética da Terra





O impulso mais notável infundido à geobiologia foi dado pelo Dr. Ernst Hartmann,  médico da universidade alemã de Heidelberg, que descobriu em 1961, após dez anos de  intenso trabalho, a  existência   de    uma gigantesca rede geomagnética presente em todos os continentes e constituída por cruzamentos de radiações telúricas, rede essa conhecida pelo nome de rede global ou rede Hartmann.

Detectou uma rede geomagnética formada por uma malha cujas linhas axiais correm na direcção Norte-Sul e Este-Oeste. As linhas Norte-Sul distam entre si cerca de 2,5 m e as linhas Este-Oeste distam cerca de 2 m. Estas linhas têm uma largura média de 21 cm. Nas intersecções  destas  “linhas Hartmann”   formam-se “nós” de energia telúrica que podem converter-se em pontos particularmente patogénicos se entrarem em ressonância com correntes de água, falhas geológicas ou linhas de alta tensão.

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Sendo a Terra um organismo vivo, estas linhas de rede não são estáveis e têm tendência a se deformarem. Com efeito, não só a rede é susceptível de se deformar, como não se estende pela Terra de uma  maneira uniforme. Por outro lado, a rede movimenta-se sob a influência dos planetas ou da Lua.

A utilização das redes telúricas era bem conhecida pelos antigos, não só para a construção de casas,  mas, sobretudo, para a edificação de templos ou igrejas que, quase sempre, eram nos mesmos lugares onde, em épocas pré-históricas, os homens haviam erigido os seus dólmens, menires e recintos sagrados. 

 Anta de Espírito Santo de Arca - Caramulo


A ciência actual, com os seus aparelhos electrónicos ultra-sofisticados e os seus aceleradores de partículas, tem proclamado, de cada vez que descobre uma nova  partícula acompanhada da sua  onda  característica, que tudo vibra, dando assim razão à sabedoria antiga que afirmava:

“No Universo, nada é estático, tudo vibra”.

Hoje sabe-se que a matéria é energia condensada e que a energia é o conjunto de todas as vibrações particulares do Universo.


sexta-feira, 27 de julho de 2012

«É A FALTA DE CULTURA, ESTÚPIDO»

Clara Ferreira Alves 
Jornalista e autora deste texto



Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores.


Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente. Nós não somos muito diferentes disto. No meio do anedotário que converteria um homem mais inteligente num homem trágico, convém não esquecer o que nos separa, exatamente, do Relvas. Pouco. O dito não é um espécime isolado, um pobre diabo animado de força e disposição para fazer negócios e trepar na vida, que entrou em associações e cambalachos, comprou um curso superior e, de um modo geral, se autoinstituiu em conselheiro do rei. Já vimos isto.


Nunca vimos isto nesta escala, porque na 25ª hora da tragédia nacional, quando Portugal se confronta com a humilhação da venda dos bens preciosos (os famosos ativos) aos colonizados de antanho e seus amigos chineses, o que o país tem para mostrar como elite é pouco. Nada distingue hoje a burguesia do proletariado. Consomem as mesmas revistas do coração, lêem a mesma má literatura (que passa por literatura), vêem a mesma televisão, comovem-se com as mesmas distrações. Uns são ricos, outros pobres.


A elite portuguesa nunca foi estelar, e entre a expulsão dos judeus e a perseguição aos jesuítas, dispersámos a inteligência e adotámos uma apatia interrompida por acasos históricos que geraram alguns estrangeirados ou exilados cultos permanentemente amargos e desesperados com a pátria (Eça, Sena) e alguns heróis isolados ou desconhecidos (Pessoa, 0'Neill).


Em "Memorial do Convento", Saramago dá-nos um retrato da estupidez dos reis mas exalta romanticamente o povo. Todos os artistas comunistas o fizeram, num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o "Rei Lear" de um lado, Relvas posando nas fotografias ao lado da bandeira do outro. Relvas nem personagem de Lobo Antunes, o (descritor da tristeza pós-colonial, chega a ser. É um subproduto de telenovela O tempo dos chefes cultos acabou, e se serve de consolação, não acabou apenas em Portugal.


A cultura de massas ganhou. No mundo pop, multimédia, inculto e narcisista, em que cada estúpido é o busto de si mesmo, a burguesia e o lúmpen distinguem-se na capacidade de fazer dinheiro. Acumular capital. O dinheiro, as discussões em volta do dinheiro acentuadas pela falta de dinheiro, fizeram do proletariado (e desse híbrido chamado classe média) uma massa informe de consumidores que votam. E que consomem democracia, os direitos fundamentais, como consomem televisão, pela imagem. Sócrates e o Armani, Passos Coelho e a voz de festival da canção. Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidaria, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles.


O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culfure em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o 'mercado', tal como o jornalista, sujeito ao raring das audiências e dos comentários online.


A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados? John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, "Invictus", conta que Nelson Mandela e os homens do ANC, na prisão, discutiam acaloradamente, apaixonadamente, Shakespeare. Foram "Júlio César" ou "Macbeth", "Hamlet" ou "Ricardo III" que os acompanharam. Não é um preciosismo. A literatura, o poder das palavras para descrever e incluir o mundo num sistema coerente de pensamento, é, como a filosofia e a história, tão importante como a física ou a álgebra. A grande mostra da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos é Shakespeare (no British Museum) e não um dono de supermercados ou futebolista.


Os 'heróis' portugueses descrevem-nos. E descrevem a nossa ignorância Passos Coelho é fotografado à entrada do La Féria ou do casino. Um dono de supermercados ou um esperto ministro reformado são os reservatórios do pensamento nacional. Uma artista plástica é incensada não pela obra mas pela capacidade de "agradar ao mercado", transformando-se, pela manifesta ausência de candidatos, em artista oficial do regime. É assim.


Não teria de ser assim. Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura quase toda velha e sem sucessores. Não estamos sós. Por esse mundo fora, a arte tornou-se cópia e reprodução (daí a predominância dos grandes copiadores de coisas, os chineses), tornou-se matéria tornou-se consumo. Como bem disse Vargas Iiosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset."


Cara Ferreira Alves - Expresso - 21-07-2012

domingo, 10 de junho de 2012

« TELEMÓVEIS... UM FASCÍNIO CONGÉNITO? »




Gostava de saber o fascínio que um bebé, uma criança pequena tem, por um "simples" telemóvel, ou ainda, por um "simples" comando de televisão. Há brinquedos coloridos, amarelos, verdes, encarnados, azulão, laranja, com cheiros, com música, tudo pensado para os pequenos petizes e... nada parece ter o fascínio de um comando de televisão, um telemóvel, um teclado! Serão os botões? Será o facto de não querermos que eles mexam neles, invocando a velha máxima do "fruto proibido ser o mais apetecido"?

Quando lemos livros sobre desenvolvimento infantil, em Psicologia, de facto não se vê qualquer abordagem a este fascínio, mas é um facto consumado que ele existe.

Existe e, sinceramente, não é agradável. Com tanta coisa interessante , tão didática para explorar, porque é que um objeto de graça discutível, cinzento, ganha pontos com tanta facilidade e sorrisos absolutamente irresistíveis?

Observa-se, dão-se voltas à cabeça para utilizar estratégias e maroscas, e nada ocorre como esclarecimento... 

Assusta, a tecnologia. Assusta, que este fascínio nasça "com o nascimento" e cresça com "o crescimento".

Dá que pensar a quantidade de sms que esta criançada  vai enviar na adolescência, no tempo que querem e vão querer passar... Assusta que meçam amizades conforme o número de sms enviadas, e que, quando estão juntos, não saibam conversar. Assusta que não se perceba o silêncio. Que não se saiba "estar" ao pé de, sem pretensões e sem barulhos.

Esconder todos os comandos e telemóveis lá de casa é uma ideia, mas em mero devaneio imaginário, pois  não é de todo exequível. Depois, há sempre a questão de não querermos as crianças numa redoma, de querermos que se apercebam do mundo tal como ele é e que saibam ser equilibradas. Tudo com bom senso, claro. Mas onde está ele? Por onde andará o bom senso nestes tempos que são os nossos, cheios de tvs, consolas, telemóveis, comandos e afins? Os chamados gadgets?

Por vezes apetece gritar, mas que se faça só por dentro... É que o bom senso ainda tem que ter lugar no nosso cérebro, e não convém deixar fazer transparecer aquilo que não é construtivo...

Será a única terapia a da substituição assertiva? Por tempo demais "qualidade", talvez: refeições, brincadeiras, serões, passeios e conversas com os pais, avós e a família alargada, com amigos bem escolhidos... Enfim, isso e o que formos descobrindo e partilhando.

Mas há que descobrir alguma coisa melhor que estas teledependências e virtualidades, 

não acham?


sábado, 19 de maio de 2012

« MIA COUTO e "A CONFISSÃO da LEOA" »


« MIA COUTO... UM ESCRITOR DE MOÇAMBIQUE »


ENTREVISTA ao JORNAL i


Mia Couto: "Era muito tímido, acho que me apaixonava três ou quatro vezes por dia". Este é o título da entrevista que o Mia deu a Susana Garrido, do jornal i, a propósito do seu último livro A Confissão da Leoa. Já entrevistei o Mia várias vezes e as conversas com ele são sempre muito tocantes. Hoje deixo aqui a entrevista que deu ao i, para quem tiver interesse e tempo para a ler. Vale a pena.
"Mia Couto é tão sereno e envolvente como os livros que escreve. Fala pausadamente, no sotaque cantado de África. E cada resposta é uma história. Convidou-nos para uma conversa num café rodeado de árvores, longe do barulho da cidade, onde nos contou o que significa ser irmão do meio e ter crescido numa casa de poesia, com a cabeça nas nuvens. António Emílio, que em criança decidiu chamar-se Mia, nasceu em Moçambique, na cidade da Beira, há 56 anos. Tem três filhos, dois deles biólogos, como o pai. Desistiu de medicina, foi jornalista e tornou-se biólogo. O seu novo livro, “A Confissão da Leoa”, foi inspirado pelos ataques de leões a pessoas em Moçambique, mas transformou--se noutra coisa a meio do caminho.

De onde vem o nome Mia?

Vem de um convívio que eu tinha com gatos, com dois, três anos. É óbvio que eu não me lembro, mas os meus pais contam-me, e têm fotos para comprovar, que eu comia com gatos, dormia com gatos, pensava que era um deles. Eram gatos vadios que iam para a nossa varanda e ali ficaram. E um dia decidi que queria ser chamado Mia. Eles aceitaram e passei a chamar-me assim. Acho que foi o meu primeiro acto de ficção.

Estudou Medicina durante dois anos mas desistiu para ser jornalista, em 1974. O que é que aconteceu?

Fui para Medicina porque queria ser psiquiatra. Mas depois desiludi-me porque tinha uma visão romântica, daquela coisa da psicanálise, do tempo em que se está com alguém de forma à terapêutica ser sobretudo relacional. Quando visitei o hospital psiquiátrico percebi que a conversa era outra. A clausura e a violência... e já estava muito ligado aos movimentos pela independência, fazia mais política do que estudava. E a Frelimo, que na altura ainda estava na clandestinidade, disse que eu devia ser jornalista, que devia infiltrar – o termo usado era este – e eu comecei a minha carreira como infiltrado.

E foi uma carreira duradoura.

Eles sugeriram que eu ficasse só um ano e depois retomava os estudos porque o país precisava de médicos, e acabei por ficar 11 anos. Foi óptimo, porque aprendi muito e uma ou outra coisa que foi muito importante para mim.

Chegou a ser director da Agência de Informação de Moçambique.

Na altura era preciso criar uma agência que desse luz à nossa luta. No momento em que ela estava a ser instalada viajei por todo o país para criar uma rede de contactos e correspondentes. Foi muito interessante.

Como estava o espírito moçambicano na altura?

Foi um momento épico, a quase totalidade do país estava a favor do que estava a acontecer. A Frelimo na altura era o país. O mal é que se convenceu de que era mesmo. Havia uma festa permanente, uma espécie de um sonho, em que tudo era possível. Mas é óbvio que depois esses momentos têm uma duração muito breve. Vivíamos numa espécie de nuvem e pôr os pés no chão é sempre duro.

Porque decidiu deixar o jornalismo? Ficou desiludido?

Foi uma aprendizagem mais que uma desilusão. Aprendi que esse projecto de mudar o mundo e torná-lo mais justo não funciona por modelos ou imposições externas. Tem de ter tempo e fazer-se de uma geração para a outra. Saí, primeiro por uma razão ideológica. Quando percebi que não era exactamente aquilo decidi que não queria ser cúmplice dessa mentira. Ainda voltei para Medicina mas durou dois dias, vi que não era o que queria fazer. Num país como aquele ser médico era uma obrigação que eu não podia suportar. Seria uma entrega missionária.

E foi estudar Biologia. Porquê?

Tinha essa paixão e pensei que poderia trabalhar com os grandes mamíferos nas reservas. Junto da minha cidade natal existe o parque Gorongosa, que é uma coisa extraordinária, e a minha paixão era trabalhar nesse ambiente, distante da cidade e das minhas próprias referências.

Aos 14 anos teve os seus primeiros poemas publicados no jornal. Em que é que um miúdo tão novo se inspira?

A maior parte da inspiração eram as meninas por quem eu me apaixonava. Platonicamente, porque eu era muito tímido, acho que me apaixonava três, quatro vezes por dia. Mas não tinha essa capacidade de sair de mim e de falar e de me apresentar ao mundo. Então vivia tudo isso em ficção. E lembro-me que um dos poemas publicados foi para o meu pai, que era poeta. E a minha mãe uma contadora de histórias.

Tem irmãos?

Tenho dois, eu sou o do meio. E tenho aquela síndrome de irmão do meio. Acreditava que era muito mal-amado, mas obviamente fui tão amado como os outros.

Mas porquê esse sentimento?

Lembro-me que... nós não éramos ricos. O meu pai era jornalista e teve de fugir de Portugal por razões políticas e nós tínhamos uma situação muito regrada. E era assim que eu pensava e não era verdade: quando havia bife, os maiores eram para o mais velho porque precisava e para o mais novo que estava a crescer e também precisava, e eu ficava com o pequeno. Mas o mais importante é que vivíamos numa casa da poesia, muito longe do mundo e da realidade, e isso marcou-nos muito a todos.

De que forma?

Vivíamos num mundo à parte. Os meus pais contavam muitas histórias, porque era uma maneira de visitarem Portugal. Conheci o país através de histórias.

Os seus pais são de onde?

São do Norte. O meu pai da zona do Porto e a minha mãe de Trás-os-Montes. Foram para Moçambique no princípio dos anos 50 e nós todos nascemos lá.

Em 1971 mudou-se da Beira, onde nasceu, para Maputo. Foi sozinho? Como foi a mudança?

Fui sozinho. Tinha 16 anos. Foi um renascimento. E para mim, que era um miúdo tímido, com muito pouco jeito para viver e que inventava uma vida à parte, foi óptimo. Uma escola de vida, de realidade. Tenho uma filha que vem agora estudar para Lisboa, tem 21 anos, e a grande questão para mim não é que ela aprenda, faça um curso, mas que aprenda a gerir o seu tempo, a valer-se a si própria, saiba conquistar aquilo de que precisa. Essa é a grande escola, não me importa que ela não tenha uma grande nota.

Disse que era tímido. Os seus irmãos aborreciam-no por isso?

Os meus pais usavam os meus irmãos como termo de comparação. “O teu irmão tem estes anos e já vai às compras sozinho e traz tudo certo.” O meu pai, sendo do Porto, chamava-me morcão. Eu era um tipo pasmado, distraído. A certa altura deu-me um bocado de jeito porque era dispensado das tarefas domésticas porque partia, estragava, perdia. Os meus irmãos olhavam para aquilo como uma meia verdade, este tipo já está a inventar para tirar partido disto...

Nos seus livros percebe-se que em Moçambique a ligação aos antepassados é muito importante. Também vive isso?

Vivo, mas de outra maneira. Tenho uma mistura de grandes coisas, de sistemas, com esse mundo não visível. Por um lado sou materialista, no sentido em que acredito na matéria. Não tenho religião, mas sou muito religioso.

Como é que isso funciona?

Não tenho crença num Deus particular, não sigo uma religião, mas preciso muito de estar em comunhão com o não visível. Uma pessoa quando pensa em não visível pensa logo em espíritos, mas por exemplo a beleza e a harmonia é aquilo que não está imediatamente visível. A religião africana, que nem tem nome, a gente chama-lhe animista mas não é, acaba por ser a tolerância. Em todas as religiões moçambicanas há uma coisa em comum que é rezar aos antepassados. Os deuses são os antepassados de cada um. Eu tenho os meus, você tem os seus e nenhum é melhor que o outro. Há coisas que existem em África que são muito felizes. Por exemplo, a ideia de que alguns animais têm alma. Isso ajuda a descentrar o homem. Achamos sempre que somos únicos e especiais, o topo da evolução, e não é nada disso.

Que animais, segundo os moçambicanos, têm alma?

A hiena, o macaco-cão, os hipopótamos, o leão. E rezam a esses espíritos dos animais. Gosto disso, põe-nos em pé de igualdade em termos espirituais, ou seja, aceitar que o outro tem espírito e que temos de lhe pedir favores. Isso é fantástico.

De que animal gosta mais?

Aquele com que eu tenho mais relação afectiva é o elefante. É um animal extraordinário. Nós exportamos a nossa maneira de olhar o mundo e eles, em muitas coisas, são parecidos connosco. A generosidade, a atenção. Mesmo depois de morrerem, e a ciência ainda não percebe bem como é que eles ficam dias sem abandonar o corpo do outro e percebem que está morto. Depois quando caminham e reconhecem a ossada de um elefante ficam ali às voltas. Há coisas que são estranhíssimas, a forma como cuidam das crianças, a maneira como organizam a sociedade em torno do apoio aos mais fracos... é muito bonito.

Voltando ao inexplicável e ao invisível, já lhe aconteceu alguma coisa dessas?

Já. Algumas vezes. E adoro não ter explicação para certas coisas. Depois de ter feito o último livro antes deste, o “Jesusalém”, fui a um parque natural e disseram-me que... esta história é um bocadinho longa, se quiser depois corte ou deite fora...

Conte na mesma.

Vou tentar abreviar o mais possível. No parque havia um velhote que era caçador, daqueles a sério, que antes de caçarem sonham com os animais. Andámos horas a pé e quando chegámos lá estava o fulano sentado. Eu pensei: “Já vi isto.” Ele estava numa esteira, com um facão a fazer uma zagaia. Não nos cumprimentou, não falou connosco. Só quando eu disse que era um contador de histórias, não ia dizer escritor, e que gostava de ouvir as dele, é que levantou os olhos e olhou para mim. Disse que no dia seguinte, às 4h, me levaria à gruta das hienas. Lá fui. Mostrou-me pegadas de animais, andámos assim toda a manhã. Depois almoçámos e perguntei-lhe se à noite podíamos fazer o mesmo para ver animais que só circulam à noite. Ele respondeu: “Você não percebeu nada. Sou cego, não vejo. Só vejo quando estou a caçar, e de noite não caço.” E eu lembrei--me que já tinha ouvido isto. Há uma frase minha no “Jesusalém”, dita por uma das personagens, um velho também, que diz: “Só vejo quando escrevo.” Isso marcou-me muito.

E o inexplicável não o aflige?

Aprendi a viver sem explicação. Ficamos com medo do que não podemos explicar e perdi esse medo. Não é preciso explicar ou prever tudo. Vivo bem nessa ignorância. Adoro.

Outra coisa que se percebe pelos seus livros é a condição inferior das mulheres em Moçambique. Há movimentos para alterar isso?

Há movimentos sim, e as mulheres não estão paradas nem precisam que os homens as vão salvar. Mas é uma coisa que ficou muito diluída. Havia a luta pela independência, pela libertação social e de repente esqueceram-se que as mulheres eram quase uma outra sociedade dentro daquela. Na luta da libertação houve um grande salto. Por exemplo, lembro-me de falar com mulheres que eram guerrilheiras e que nunca na vida pensaram que podiam usar calças, pegar numa arma e lutar ao lado dos homens.

E depois da guerra continuaram a poder usar calças?

Sim, continuaram. Mas a tentação de uma grande parte da sociedade masculina é evitar isso. No entanto, daqueles países ali à volta, como o Malaui, onde mulher que saia à rua de calças corre o risco de ser agredida, Moçambique está acima da média, isso posso dizer.

Mas é uma preocupação sua escrever sobre isso.

Sim, e sobre qualquer coisa que me aflija enquanto cidadão. Não tenho uma militância partidária, as minhas militâncias mantêm-se a favor de um mundo melhor.

Os seus livros estão traduzidos em muitas línguas. Como se traduz o encanto das suas palavras, que são muito específicas do português com influência moçambicana?

Não passa, em geral. Há casos em que o tradutor consegue encontrar alguma equivalência desse trabalho de criação linguística.

No processo de tradução está em contacto com os tradutores, eles abordam-no com muitas dúvidas?

Muitas. Tenho mais trabalho a acompanhar uma tradução que a fazer um livro novo, quase. Algumas vezes nota-se que não é um problema de ordem técnica, mas de ordem cultural. Às vezes com expressões idiomáticas que são do português de Portugal. Chegam a mandar perguntas como: “O que é o cu de Judas?” Outras são do contexto cultural de Moçambique, e isso não se explica por palavras, não é?

Disse que escrever um livro é extenuante e que pensa sempre que vai ser o último. É assim tão difícil?

É um grande prazer, mas é como se me esgotasse porque tenho de viver as vidas dos meus personagens. Então tenho de me desdobrar. Tenho de morrer se as minhas personagens morrem, tenho de casar se o personagem casa, sou mulher, sou velho. Há uma espécie de condensação. Vivi várias vidas na minha vida.

Como é o seu processo de escrita?

É caótico. Primeiro escuto, começa sempre por aí. Qualquer escritor é um escutador em primeiro lugar. Depois capturo o que me comoveu e me roubou o chão. Tem de ser algo quase que me dissolve. Uma frase, uma pessoa, um momento, tem de tomar posse de mim, fico perdido. Depois para dar um sentido às coisas tenho de sair de mim, e aí começa a história.

E a escrita? Fecha-se e dedica-se só ao livro?

Não, tenho uma ocupação profissional durante o dia. Mas escrevo em cadernos, assim como o seu, tudo o que me lembro. Infelizmente perco metade. Já podia ter escrito mais se não tivesse perdido, mas pronto. E escrevo à noite.

Neste novo livro, “A Confissão da Leoa”, o que o inspirou foram mesmo os ataques de leões em Moçambique?

Foi. Acabei por não escrever um livro sobre isso, mas o que desencadeou a história foi isso. Nunca pensei que fosse uma coisa para a qual eu estivesse tão pouco preparado. Conhecia alguns dos camponeses que foram atacados. Esta ideia de que podemos ser devorados por um bicho é um medo que despertou coisas anteriores a mim próprio, desde que somos humanos.

Mas não é muito comum os leões atacarem seres humanos?

Não, mas a verdade é que há muitos de-sequilíbrios. Os leões ficaram sem outras coisas para comer, matamos os pequenos animais que eles comiam. Outra razão é que a guerra faz com que esse respeito que os animais têm pelo homem seja quebrada. Na guerra há cadáveres que ficam sem sepultura e são comidos por feras. E de repente há ali alguma coisa que desperta.

E como foi viver com esse medo?

Vejo esse medo como uma coisa boa. Uma das coisas que tenho aprendido é sobre esta ilusão que temos da nossa própria dimensão. No momento em que saio do carro a pé e já não tenho um sinal da presença humana percebo que somos pequeninos, somos menos que os outros, os nossos parceiros animais. Mas o meu medo era diferente dos outros. O dos outros era um medo quase cósmico, tinham medo de uma entidade que às vezes tinha a forma de um leão. Aquilo foi uma espécie de punição. O meu medo era físico, de morrer atacado.



domingo, 15 de abril de 2012

« O ADAMASTOR DO ÁLCOOL »




« O MOSTRENGO DO BAR »

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 O mostrengo que está no fim do bar
Do canto de breu ergueu-se a cambalear
À roda da mesa rodou três vezes
Três vezes rodou a espumar
E disse: “Quem é que ousou tragar
As bebidas que eu encomendo
Para a minha goela sem fundo?”
E o homem ao balcão disse rangendo:
“Espere só mais um segundo!”
“Quem é que me põe neste alvoroço
Como é que emborco o meu almoço?”
Disse o mostrengo e rodou três vezes
Três vezes rodou sujo e ensosso,
“Quem vem beber onde eu me engrosso
Para que o álcool se desperdice
E eu me enferme moribundo?”
E o homem ao balcão rangeu e disse:
“ Espere só mais um segundo!”
Três vezes à garrafa as mãos prendeu
Três vezes da garrafa as desprendeu
E disse ao fim de ranger três vezes:
“Aqui ao balcão sou mais do que eu
Sou um cliente que quer o bar que é teu;
E mais que o mostrengo que a botelha espreme
E derrama um hálito nauseabundo
Mandam os fãs dos bolos com creme
Que consomem e zarpam num segundo!”





 Autora: Adelina Velho da Palma
 Inspirado no poema:
"O Mostrengo" de 
Fernando Pessoa


sugiro uma visita ao seu site:

sexta-feira, 2 de março de 2012

« GERMANÓFILOS ANTES, DURANTE, E AGORA... »



Há provavelmente muito mais coisas que unem Sidónio Pais, Salazar e Pedro Passos Coelho, mas a sua simpatia germanófila é cada vez mais indisfarçável. No caso de Sidónio Pais, um claro alinhamento com o imperialismo prussiano, no de Salazar uma contrariada neutralidade colaborante com o III Reich e, no de Passos Coelho, o apoio entusiástico às imposições de Berlim.




« Dias de servidão » 

Artigo de Manuel António Pina, in - Jornal de Notícias de 2012.03.01.

 

Manuel António Pina 

Poeta, Jornalista, Escritor e Pensador

Autor da opinião abaixo inserida

--o--

A tese do aluno bem comportado, o que papagueia a "sebenta" do professor e vai até mais longe do que ele exige, esteve em voga nos governos de Cavaco e deu no que hoje se sabe.
O Governo PSD/CDS adoptou idêntica estratégia de submissão acrítica. Foi humilhante ver os olhos luzentes de alegria com que Vítor Gaspar deu conta ao país que os capatazes dos mercados que, por intermédio da actual maioria, nos governam, lhe deram nota positiva (um 10 interrogado mas, de qualquer maneira, uma nota positiva). 
 
E, quando Olli Rehn, depois de umas carícias ("Lindos meninos..."), anunciou ainda mais "desafios" e "sacrifícios", Gaspar há-de decerto ter murmurado: "Venham eles!".
Diogo Feio, eurodeputado do CDS, é um bom intérprete dessa estratégia. Ao "Público" diz que "Portugal é bem visto por ter uma maioria de governo sólida" e uma situação social "pacificada". O único problema, parece, é haver (ainda) direito à greve: "Nós somos observados ao mais pequeno pormenor e cada greve que é feita mancha a imagem de Portugal".
Não mancham "a imagem de Portugal" o empobrecimento generalizado que em tempos o primeiro-ministro anunciou como objectivo político do Governo, o desastre social, os afrontosos números do desemprego, mas o facto de os trabalhadores serem mal comportados e lutarem pelos seus direitos. 
 
A sra Merkel deve ter gostado de ouvir, afinal sempre há portugueses "mais alemães do que os alemães".