segunda-feira, 30 de agosto de 2010

« VIDA de MINEIRO: EXPLORAÇÃO, PERIGO e FÉ em DEUS... »

SANTA BÁRBARA - Padroeira dos Mineiros


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VÍDEO NOTICIOSO s/o DRAMA dos MINEIROS no CHILE
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A 4 de Dezembro é comemorado, em todo o mundo, o dia de Santa Bárbara. A este propósito dá-se a conhecer um texto (extraído de uma palestra proferida pelo Prof. F. Mello Mendes no Instituto Superior Técnico, nas Las Jornadas de Comemoração do Dia de Santa Bárbara, em 4 de Dezembro de 2003) acerca do historial e culto, que explica a origem da devoção dos mineiros por esta Santa.

Para compreender a devoção dos mineiros por Santa Bárbara importa entrar um pouco no conhecimento da história da respectiva vida lendária. Sobre esta história existem numerosas versões, a mais difundida das quais considera Bárbara nascida no início do Séc. IV em Nicomédia, actual Ismite, cidade da antiga Bitínia, na Ásia Menor, junto ao Mar de Mármara; era então Imperador Romano, Maximiano Hércules.

Segundo esta versão, Bárbara era uma jovem invulgarmente bela, filha de Dióscoro, homem rico e poderoso, adorador dos deuses grego-romanos. Este, desejando destinar sua filha a um bom casamento, que também constituísse para ele uma vantajosa aliança, e por ter de partir em viagem, encerrou-a numa torre, mandando construir ali um balneário com duas janelas.

No seu isolamento, Bárbara terá entrado em profunda meditação, acabando por se converter à fé cristã, então seriamente proibida no país e já motivadora de perseguições. Na ausência do seu pai, Bárbara mandou abrir no seu balneário uma terceira janela para que assim, segundo ela, recebesse uma luz que representasse a Santíssima Trindade. Também iluminada pela Santíssima Trindade terá desenhado uma cruz com o dedo, no mármore da balneário, que ali ficou profundamente gravada e que, conforme vários relatos, teve efeitos milagrosos para os que, mais tarde, a tocaram. Além disso mandou destruir os ídolos pagãos que seu pai ali tinha.

Quando Dióscoro regressou da viagem, interrogou sua filha, que explicou o que tinha feito e informou seu pai que recusava qualquer casamento, pois já se tinha destinado a Jesus Cristo. Aquele, furioso, desembainhou a espada para a castigar, o que fez com que Bárbara fugisse e se ocultasse no interior de um rochedo que, segundo a lenda, se terá aberto para a esconder. Numa versão da Idade Média, que situa a história lendária de Bárbara perto de Atenas, a jovem terá sido protegida por mineiros de Laurio que a esconderam na sua mina. Denunciada por um pastor, Bárbara terá sido entregue ao seu pai que a levou a Marciano, máxima autoridade romana da cidade, acusando-a de professar o Cristianismo. Marciano quis perdoá-la, se Bárbara aceitasse os deuses de Roma, mas a jovem terminantemente recusou.

Por várias vezes açoitada cruelmente, Bárbara terá pedido sempre o auxílio a Deus, tendo Jesus aparecido assegurando-lhe que estaria sempre a seu lado, de modo que as crueldades dos tiranos nada pudessem contra ela. Nesse momento, Bárbara ter-se-á sentido curada e terá dado muitas graças a Jesus, assegurando-lhe que o seguiria para sempre.

Não conseguindo demovê-la da sua fé em Jesus, Marciano, no cúmulo do furor, tê-la-á mandado decapitar. Dióscoro, seu pai, que terá solicitado ser ele o executor, terá levado Bárbara ao alto de um monte onde esta se terá ajoelhado e pedido a Jesus que, na hora da sua iminente morte, a absolvesse de todos os seus pecados. Levada pela sua bondade, terá pedido também que a mesma graça fosse concedida a todos os que, em situações de morte iminente, por seu intermédio implorassem a Extrema Unção. Tendo recebido de Jesus a garantia da satisfação destes pedidos, Bárbara terá sido decapitada pelo seu cruel pai. Isto ter-se-á passado no dia 4 de Dezembro, dia de futuro dedicado à Santa. Continua a lenda que, entretanto, o céu escurecera, se tornara tempestuoso e que, quando Dióscoro encetou o regresso do monte, um raio o fulminou, reduzindo-o a cinzas. E assim, enquanto Bárbara terá subido ao Céu levada por anjos, Dióscoro terá descido ao Inferno para ser atormentado para sempre pelos demónios.

A adoração da Santa Bárbara por parte do mineiros, ao ponto de a elegerem como Padroeira, poderá encontrar-se na sua história lendária. Para além de relações possíveis, que podem ser consideradas menores, do refúgio de Bárbara no interior da terra , quando primeiramente perseguida pelo pai, parece fora de dúvida que o motivo essencial da adoração se encontre na súplica, feita pela Santa a Jesus, para que, quando em situações de morte iminente, todos os que implorassem a Deus, por seu intermédio, a Extrema Unção, a obtivessem, ficando absolvidos de todos os seus pecados. Tais situações de morte iminente tê-las-iam sempre os mineiros diante dos olhos quando no seu trabalho no subsolo.

[Este também é o motivo pelo qual Santa Bárbara é também venerada, como Padroeira, por outras profissões (artilheiros, pirotécnicos, bombeiros, etc.); outras profissões, relacionáveis com a torre, tanto quanto à respectiva construção (cabouqueiros, pedreiros, arquitectos) como quanto à respectiva utilização como prisão (presidiários, se tal se pode considerar uma profissão, e guardas de prisão), têm igualmente a Santa como Padroeira. No mundo inteiro, Santa Bárbara mantém-se Padroeira dos mineiros].


Mineiros no trabalho



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As características de Fé religiosa são de largo espectro positivo e, adicionadas às técnicas de salvamento, ao rebate na consciência de quem negligenciou a segurança das estruturas da mina dando origem à catástrofe a que o mundo inteiro assiste e se solidariza, dão esperança, aos que estão cá fora, de ver os seus entes de novo à superfície.

A despropósito, lembro que, fez recentemente dez anos, uma equipa de marinheiros militares russos sufocaram sob as águas, encarcerados no submarino nuclear Kursk!





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Legenda
Fotos e vídeo in: Internet
Texto adaptado da: Revista
da Ordem dos Engenheiros

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

« ... PORTUGAL ... AINDA A ARDER ?! ...»


Quem andará apostado
em
"Varrer Portugal"?


=+=


Os incêndios tiveram o mérito de levar alguns portugueses a pensar um pouco mais sobre o país, deixando para trás as dúvidas de dois pobres magistrados que chegaram a pensar que a capital do país ficava nos seus umbigos. De repente somos confrontados com interrogações a sério, de cuja resposta depende o futuro do país.

É fácil inventar um banco de terras imaginando um regresso forçado à agricultura como sucedeu no Cambodja como propõe o BE, é fácil propor que sejam os beneficiários do rendimento mínimo a limpar as matas, é fácil resolver o problema desancando no ministro. Tudo isso é fácil, mas o problema subsiste.

Uma das maiores riquezas do país é a sua diversidade e na origem dessa diversidade cultural está uma riqueza cada vez mais delapidada que é a biodiversidade. De cinquenta em cinquenta quilómetros encontramos um novo país, diferentes ambientes ecológicos, diferentes manifestações culturais e religiosas, diferentes gastronomias, diferentes opções arquitectónica. De norte a sul de este a oeste temos serras diferentes, temos planícies áridas e planícies verdes, temos sapais, arrozais, estuários de rios, temos centenas de variedades de aves, muitos milhares de espécies botânicas e um imenso mar por conhecer.

É toda esta riqueza que estamos a destruir, ao longo de décadas que o país despreza um dos seus poucos recursos, destroem-se modelos sociais com políticas de desenvolvimento descuidadas, substituem-se árvores de crescimento lento por espécies que alimentam a indústria do papel, promovemos monoculturas como está a suceder agora com o cultivo intensivo de oliveiras no Alentejo. Os incêndios não passam de uma faceta desse fenómeno que é a destruição da biodiversidade, é quase um sintoma da doença que afecta a natureza.

Por cada hectare que arde Portugal fica mais pobre em biodiversidade, e não é preciso que seja de floresta como dá a entender a comunicação social que aprece distinguir incêndios de primeira de incêndios de segunda, um incêndio em zonas de mato teria consequências mais trágicas do que a perda de alguns pinhais. Perdem-se espécies vegetais que nunca foram estudadas, insectos quase desconhecidos, habitats de fauna cada vez mais escassa.

É urgente repensar as políticas que afectam os equilíbrios nos meios rurais, senão mesmo nas cidades e nas suas periferias, o ambiente é muito mais do excelentes localizações para condomínios fechados ou para olivais de regadio. É preciso salvar o que resta e que ainda é muito, temos a obrigação de deixar às próximas gerações um país saudável e não apenas dívida pública e as correspondentes obras em betão e alcatrão.

Não é por haver calor que há mais incêndios, mais grau, menos grau sempre ocorreram vagas de calor e nunca se assistiu a tantos incêndios apesar de os recursos para os prevenir, detectar e combater serem hoje bem mais poderosos do que aqueles de que dispunha no passado. A solução não passa por imaginar o regresso da população ao campo, por valas ou queimadas controladas ou por disparates como a limpeza das matas, como se fossem os pinheiros a única espécie vegetal a proteger.

A solução passa por uma economia do ambiente, por atribuir valor económico a actividades e produções desvalorizadas pelo mercado e que são indispensáveis ao equilíbrio ecológico. A solução passa por uma abordagem global integrando diversas políticas, desde a política agrícola às políticas sociais. A solução passa por uma reflexão séria em que em vez de se ganharem votos seja o país a ganhar o futuro...

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Portugal... Terra queimada?...
Há que dizer
Chega!






Imagens: Net
Texto in: O Jumento

sábado, 14 de agosto de 2010

« MARIA LAMAS traduziu "O FEITICEIRO de OZ" »

Obra traduzida para português por Maria Lamas
(1940)
ilustrada por Hugo Manuel
segundo o filme
da
'Metro-Goldwyn-Mayer'

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Ilustração recente do 'motor' Google, evocando
o
71º Aniversário
da Obra

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O Google, como sempre, faz evocações de matérias de grande relevo que apresenta no seu "motor de busca" lembrando, ou suscitando a curiosidade.
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Assim, depois de uma leve introdução sobre o livro «O Feiticeiro de Oz», aproveitaremos para homenagear também, a sua Tradutora, [Escritora e Jornalista] Maria Lamas.
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As crianças têm uma paixão, que pode dizer-se instintiva, pelas histórias maravilhosas e manifestamente irreais. As fadas de Grimm e Andersen sempre interessaram mais os cérebros e os corações infantis do que todas as criações humanas, por muito belas que elas sejam. Apesar disso, as histórias de fadas, que têm feito o encanto de todas as gerações, já eram classificadas de "fantasistas, por alguns organizadores de bibliotecas infantis da época.
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Assim, começaram a aparecer séries de livros para crianças onde já não havia "génios", anões ou fadas, nem aquelas aventuras terríveis, por vezes sangrentas, de que eles eram heróis, para dar o lugar, em cada história, a uma lição de moral. Porque a moral faz parte da educação infantil!
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O que a criança já desses finais dos anos trinta procurava nas histórias que lia era uma distracção, dispensando de bom grado os incidentes desagradáveis que raramente faltavam na literatura infantil de outros tempos.
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«O Feiticeiro de Oz» foi escrito para agradar à criança de então. Pretendeu ser uma história moderna de fadas, na qual o encanto, a alegria e o imprevisto substituiam os pesadelos e sustos de outras histórias 'maravilhosas'.

.O livro inspirou o filme do mesmo nome, realizado pela Metro - Goldwwyn - Mayer, o qual agora celebra o seu 71º aniversário. Ao seu autor, L. Frank Baum, foi reconhecido o valor de revolucionar a maneira de escrever literatura infantil, adaptando-se à evolução sociológica.
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A grande confirmação destes factos, está na decisão de Maria Lamas traduzir aquele autor incluindo esta obra, confirmando com a sua escolha, o positivo alcance social dos seus propósitos.



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Maria Lamas nasceu em Torres Novas em 1893. Criança contemplativa e reservada, recebeu uma educação de tipo tradicional no Convento de Santa Teresa de Jesus, que só viria a completar mais tarde, depois de casada. Saiu do colégio em 1910, por alturas da proclamação da República, acontecimento que referia como um dos marcos profundos da sua vida.

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No mesmo ano conheceu o oficial de cavalaria, Ribeiro da Fonseca com quem casaria um ano mais tarde. Apenas com dezassete anos, acompanha, então, o marido, que parte para África, onde permanece até 1920. A sua vivência de África reflecte-se no livro Confissões de Sílvia.

Regressa a Portugal depois do seu divórcio e fixa-se em Lisboa, onde se dedica ao jornalismo.

Começou por trabalhar numa agência de notícias, depois na revista ‘Civilização’ e finalmente no ‘Século’ onde entrou, pela mão de Ferreira de Castro, para dirigir o ‘Modas&Bordados’, uma típica revista para donas de casa, à qual Maria Lamas dedicará 20 anos da sua vida, tentando transformá-la em algo mais significativo.

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Manteve, durante anos, a famosa coluna ‘O Correio da Tia Filomena’, onde, dentro dos condicionalismos da censura, falava da condição das mulheres em Portugal.

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Sendo o jornal ‘O Século’ um dos expoentes importantes da cultura portuguesa na época, Maria Lamas encontrou aí uma plataforma de trabalho propícia para a sua personalidade dinâmica e afirmativa e desenvolveu vários projectos, organizando conferências, concertos e exposições.

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Tendo a mulher portuguesa como temática geral de fundo, ficaram, então, conhecidas algumas das exposições que promoveu e organizou, como por exemplo, a que apresentou teares do Minho, mesas de trabalho de mulheres como a Marquesa de Alorna e Carolina Michaelis, e onde recriou um conjunto de actividades femininas, ou a que foi a realizada com tapetes de Arraiolos fabricados pelas reclusas do estabelecimento prisional das Mónicas e que permitiu a estas algumas horas de liberdade, nos salões do ‘Século’, para apreciarem os seus trabalhos.

Sob o pseudónimo de Rosa Silvestre, escreveu obras infantis, como Caminho Luminoso e Para Além do Amor, entre outras.

Em 1945, Maria Lamas é eleita presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, associação fundada durante a I República e alvo de sistemática repressão pelo regime salazarista.

.O Conselho viria a ser encerrado algum tempo depois pela P.I.D.E., mas o cargo permite que Maria Lamas percorra o país e conheça melhor a condição das mulheres. Dessas viagens nasce o livro As Mulheres do meu País, que ficará como um referente histórico. Após esta obra publicaria ainda A Mulheres no Mundo e O Mundo dos Deuses e dos Heróis.

As suas opções pessoais e posicionamentos políticos valeram-lhe várias detenções ao longo da vida. A primeira teve lugar como consequência do seu apoio à candidatura do General Norton de Matos. É presa sob a acusação de propagar notícias falsas e pedir a libertação dos presos políticos. Esta seria apenas a primeira de outras detenções, que viriam a afectar profundamente a sua saúde e a determinar a sua condição de exilada política.

A partir de 1961, na qualidade de Membro do Conselho Mundial da Paz fixa-se, em exílio, durante oito anos, na cidade de Paris. É da janela do seu quarto no Hotel Saint-Michael que apoia os jovens durante o Maio de 1968, passando-lhes baldes de água para se protegerem dos gases lacrimogéneos.

Apesar dos seus oitenta anos, apoia ainda com todo o vigor a revolução do 25 de Abril, em Portugal.

Como directora honorária do ‘Modas&Bordados’, foi uma das primeiras pessoas a receber a Ordem da Liberdade das mãos do Presidente da República.

Maria Lamas faleceu em Évora aos noventa anos de idade deixando na memória de todos os que com ela conviveram a marca de uma personalidade rica, invulgar e influente, de forma duradoura, para a construção de uma visão nova e alargada do papel da mulher e da democracia.



sábado, 7 de agosto de 2010

« GRÃOS de AREIA... na ENGRENAGEM ... »





Democracia corrompida

O potencial autêntico da democracia vem perdendo terreno hoje para a ascensão de um novo capitalismo autoritário

Slavoj Žižek

O filósofo alemão Peter Sloterdijk observou que, se há uma pessoa para quem farão monumentos daqui a cem anos, ela é Lee Kuan Yew, o líder de Singapura que inventou e colocou em prática o chamado “capitalismo de valores asiáticos”. O vírus desse capitalismo autoritário tem-se espalhado de maneira vagarosa porém certeira pelo globo.

Antes de dar início a suas reformas, Deng Hsiao-Ping visitou Singapura e enalteceu expressamente aquele país como um modelo que toda a China deveria seguir. Essa mudança tem um significado histórico mundial: até agora, o capitalismo parece inextrincavelmente ligado à democracia – viu-se, é claro, de tempos em tempos, o recurso da ditadura directa, mas, depois de uma década ou duas, a democracia se impôs de novo (lembre-se, por exemplo, apenas dos casos da Coreia do Sul e do Chile). Agora, no entanto, a ligação entre a democracia e o capitalismo está rompida.

Diante da actual explosão do capitalismo na China, os analistas com frequência perguntam-se quando a democracia política, como acompanhamento político natural do capitalismo, se fortalecerá. Não obstante, uma análise mais detida rapidamente desfaz essa esperança – e se o prometido segundo estágio democrático que se segue ao autoritário vale de lágrimas nunca chegar? Talvez seja isso o que há de mais inquietante sobre a China de hoje: a suspeita de que seu capitalismo autoritário não é apenas uma sobra do nosso passado, a repetição do processo de acumulação capitalista que, na Europa, se deu do século XVI ao XVIII, e sim um sinal do nosso futuro.

E se “a perniciosa combinação do açoite asiático com a bolsa de valores europeia” (a velha caracterização de Trotsky da Rússia czarista) provar-se economicamente mais eficiente que o nosso capitalismo liberal? E se ela sinalizar que a democracia, como a entendemos, não é mais condição e mola propulsora do desenvolvimento económico, mas seu obstáculo?

Salto adiante

Há aqui ainda um paradoxo adicional: existe, para além de todos os comentários maliciosos e analogias superficiais, uma profunda homologia estrutural entre o permanente auto-revolucionamento maoísta, o permanente combate contra a ossificação das estruturas estatais, e a dinâmica inerente ao capitalismo. Aqui torna-se tentador parafrasear o trocadilho de Bertolt Brecht “o que é o roubo de um banco se comparado com a fundação de um novo banco?”: o que são os ímpetos violentos e destrutivos de um membro da Guarda Vermelha durante a Revolução Cultural se comparados à verdadeira Revolução Cultural, a dissolução permanente de todas as formas de vida necessárias à reprodução capitalista? Hoje, a tragédia do Grande Salto Adiante [campanha de Mao Tsé-tung para tornar a China uma nação desenvolvida e socialmente justa em tempo recorde] está-se repetindo como a comédia do acelerado Grande Salto Adiante capitalista para a modernização, com o velho slogan “fundição de ferro em cada vilarejo” ressurgindo como “um arranha-céu em cada rua”. Ou, para dizer de uma maneira brutalmente irónica, a liquidação dos inimigos nos expurgos maoístas dá lugar à liquidação total dos stocks nos centros de comércio.

Mao Tsé-tung, o grande capitalista?

Alguns esquerdistas ingénuos alegam que o legado da Revolução Cultural e o maoísmo em geral actuam como força contrária ao capitalismo desenfreado, evitando seus piores excessos, mantendo um mínimo de solidariedade social. E se, entretanto, o caso for exactamente o oposto? E se, numa espécie de malandragem involuntária e, por isso mesmo, ainda mais cruelmente irónica, a Revolução Cultural, com seu apagamento brutal de tradições passadas, foi um “choque” que criou as condições para a subsequente explosão capitalista? E se a China tiver de ser adicionada à lista de Naomi Klein de Estados nos quais uma catástrofe natural, militar ou social abriu o caminho para uma nova explosão capitalista?

A suprema ironia da história é tal que foi o próprio Mao quem criou as condições ideológicas para o rápido desenvolvimento capitalista demolindo a base da sociedade tradicional. Qual foi o seu clamor para o povo, especialmente para os jovens, na Revolução Cultural? “Não esperem que outra pessoa lhes diga o que fazer, vocês têm o direito de se rebelar! Então pensem e ajam por si próprios, destruam relíquias culturais, denunciem e ataquem não apenas os mais velhos, mas também o governo e oficiais do partido! Varram do mapa o mecanismo repressor estatal e organizem-se em comunas!” E o clamor de Mao foi ouvido – o que se seguiu foi uma explosão de paixão desenfreada que visava deslegitimar todas as formas de autoridade, de modo que, no fim, Mao teve de chamar o exército para restabelecer alguma ordem. O paradoxo é tal que a batalha chave da Revolução Cultural não se deu entre o aparato do Partido Comunista e os inimigos tradicionais denunciados, mas entre exército e Partido Comunista e as forças que Mao havia invocado.

Confrontar a limitação da democracia parlamentar

Isso não significa, é claro, que devamos renunciar à democracia em favor do progresso capitalista. Mas deveríamos confrontar a limitação da democracia parlamentar representativa, bem formulada por Noam Chomsky quando disse que “é apenas quando a ameaça de participação popular é superada que formas democráticas podem ser contempladas com segurança” e, dessa forma, destacou o núcleo “apassivador” da democracia parlamentar que a torna incompatível com a auto-organização política directa do povo.

Walter Lippmann, o ícone do jornalismo norte-americano no século XX, desempenhou um papel fundamental na compreensão da democracia dos EUA. Apesar de politicamente progressista (tendo defendido uma relação justa com a União Soviética etc.), propôs uma teoria da ‘media’ pública que tem um arrepiante efeito de verdade. Ele cunhou a expressão “manufactura do consentimento”, mais tarde tornada famosa por Chomsky – mas Lippmann a pensou de uma maneira positiva. Em Public opinion (1922), ele escreveu que “uma classe governante” deve-se erguer para enfrentar o desafio – ele via o povo à maneira de Platão, como uma enorme besta ou um rebanho perplexo – debatendo-se no “caos das opiniões locais”.

Assim, o rebanho de cidadãos deve ser governado por “uma classe especializada cujos interesses não se limitem à sua localidade” – essa elite deve agir como uma maquinaria de conhecimento que remedia o defeito primário da democracia, o ideal impossível do “cidadão omni-competente”.

Cada cidadão é um rei

É assim que funcionam nossas democracias: com nosso consentimento. Não há mistério no que Lippmann estava dizendo. É um fato óbvio; o mistério reside no fato de que, cientes disso, nós jogamos esse jogo. Agimos como se fôssemos livres e estivéssemos decidindo livremente, não só aceitando silenciosamente, mas até mesmo exigindo que uma injunção invisível (inscrita na própria forma de nosso discurso livre) nos diga o que fazer e pensar. Como há muito já sabia Marx, o segredo está na própria forma.

Nesse sentido, numa democracia, cada cidadão ordinário é efectivamente um rei – mas um rei numa democracia constitucional, um rei que decide apenas formalmente, cuja função é a de assinar medidas propostas pela administração executiva. É por isso que o problema dos rituais democráticos é homólogo ao grande problema da democracia constitucional: como proteger a dignidade do rei? Como manter a aparência de que o rei de facto decide, quando todos sabemos que isso não é verdade? Trotsky estava, portanto, certo em sua reprovação da democracia parlamentar, que não se deve ao facto de ela dar demasiado poder às massas incultas, mas, paradoxalmente, ao fato de ela apassivar demasiadamente as massas, deixando a iniciativa para o aparato de poder estatal (diferentemente do que ocorreria nos “sovietes”, nos quais as classes trabalhadoras se mobilizam de maneira directa e exercem o poder).

A crise da democracia

O que chamamos “crise da democracia” não ocorre, portanto, quando as pessoas deixam de acreditar em seu próprio poder, mas, ao contrário, quando deixam de confiar nas elites, naqueles de quem se espera que saibam por elas e que as orientem, quando experimentam a ansiedade que indica que “o (verdadeiro) trono está vago”, que a decisão é agora de fato sua. Há, assim, nas “eleições livres” sempre um aspecto mínimo de polidez: os que estão no poder educadamente fingem não reter o poder e nos pedem que decidamos livremente se queremos dar-lhes o poder – uma forma que imita a lógica de um gesto que se espera que seja recusado.

Ou, posto em termos da Vontade Popular: a democracia representativa em sua própria noção envolve um apassivamento da Vontade Popular, sua transformação em não voluntariedade – a voluntariedade é transferida para o agente que representa o povo e que exerce a vontade em seu lugar.

Quando alguém é acusado de comprometer a democracia, deveria então responder com uma paráfrase da réplica à similar acusação (de que os comunistas estão comprometendo a família, a propriedade, a liberdade etc.) no Manifesto comunista: a própria ordem dominante já os está comprometendo. Da mesma forma que a liberdade (de mercado) é não liberdade para aqueles que vendem sua força de trabalho, da mesma maneira que a família é comprometida pela família burguesa sob a forma de prostituição legalizada, a democracia é comprometida por sua forma parlamentar com seu concomitante apassivamento da grande maioria e os crescentes privilégios executivos implicados pela contagiosa lógica de estado de emergência.

Tipos de corrupção na democracia

Badiou propôs uma distinção entre dois tipos (ou, antes, níveis) de corrupção na democracia: a corrupção empírica de fato e a corrupção que é inerente à própria forma da democracia com sua redução da política à negociação de interesses privados. Essa separação torna-se visível nos casos (raros, admita-se) em que um político “democrático” honesto luta contra a corrupção empírica ao mesmo tempo em que apoia o espaço formal da corrupção. (Claro que também ocorre o caso oposto do político empiricamente corrupto que age em favor da ditadura da Virtude.)

Tendo em vista a distinção benjaminiana entre violência constituída e constituinte, seria possível dizer que estamos lidando com a distinção entre a corrupção constituída (casos empíricos de violação da lei) e a corrupção “constituinte” da própria forma de governo:

“Se a democracia é uma representação, em primeiro lugar ela representa o sistema geral que sustenta sua forma. Em outras palavras, a democracia eleitoral só é representativa na medida em que é antes a representação consensual do capitalismo, hoje chamado de ‘economia de mercado’. Tal é a sua corrupção em princípio.” (Alain Badiou, De quoi Sarkozy est-il le nom?)

Essas linhas de Badiou deveriam ser tomadas em seu sentido mais estritamente transcendental: é claro que no nível empírico a democracia liberal multipartidária “representa” – espelha, regista, mede – a dispersão quantitativa das diferentes opiniões das pessoas, o que elas pensam sobre os programas propostos pelos partidos e sobre seus candidatos etc.; no entanto, mais importante que esse nível empírico e num sentido muito mais “transcendental”, a democracia liberal multipartidária “representa” – institui – uma certa visão de sociedade, política e do papel que os indivíduos nela têm.

A indiferença política das pessoas

A democracia liberal multipartidária “representa” uma visão muito precisa da vida social na qual a política se organiza em partidos que competem por meio de eleições para exercer o controle sobre o estado legislativo e o aparato executivo etc. Deve-se sempre estar ciente de que essa “moldura transcendental” nunca é neutra – ela privilegia certos valores e práticas.

Essa não neutralidade torna-se palpável nos momentos de crise ou indiferença, quando experimentamos a incapacidade do sistema democrático de captar o que as pessoas de fato querem ou pensam – essa incapacidade foi demonstrada por fenómenos anómalos como as eleições britânicas de 2005: apesar da crescente impopularidade de Tony Blair (ele era constantemente eleito a pessoa mais impopular do Reino Unido), não houve meio de esse descontentamento encontrar uma expressão política efectiva.

Havia algo de obviamente problemático nesse caso – não que as pessoas “não soubessem o que queriam”, mas, antes, a resignação cínica as impediu de agir de acordo com essa vontade, de modo que o resultado foi o estranho desencontro entre o que as pessoas pensavam e como elas agiram (votaram).

Já Platão, em sua crítica à democracia, mostrava-se totalmente ciente desse segundo tipo de corrupção; e essa crítica também é claramente discernível no favorecimento jacobino da Virtude: na democracia no sentido de representação e negociação da pluralidade de interesses privados, não há espaço para a Virtude. É por esse motivo que, na revolução proletária, a democracia tem de ser substituída pela ditadura do proletariado.

Eleições não são um meio de Verdade

Não há razão para desprezar as eleições democráticas; deve-se apenas insistir que não existe uma indicação per si da Verdade – como regra, elas tendem a reflectir a deixa predominante determinada pela ideologia hegemónica.

Tomemos um exemplo que certamente não é problemático: a França em 1940. Até Jacque Duclos, o segundo homem do Partido Comunista Francês, admitiu numa conversa particular que se, àquela altura da história, eleições livres tivessem ocorrido na França, o marechal Pétain teria ganhado com 90% dos votos. Quando De Gaulle, em seu acto histórico, recusou-se a reconhecer a rendição aos alemães e continuou a resistir, alegando que apenas ele, e não o regime de Vichy, falava em nome da verdadeira França (em nome da verdadeira França como tal, não apenas em nome da “maioria dos franceses”!), o que ele estava dizendo era profundamente verdadeiro ainda que do ponto de vista “democrático” fosse não apenas ilegítimo como também claramente oposto à opinião da maioria do povo francês…

Pode haver eleições democráticas que sancionem um evento de Verdade – uma eleição na qual, contra a inércia céptico-cínica, a maioria “desperte” momentaneamente e vote contra a opinião ideológica dominante –, porém, o carácter bastante excepcional de um tal surpreendente resultado eleitoral prova que as eleições como tal não são um meio de Verdade.

A ascensão do capitalismo autoritário

É esse potencial autêntico da democracia que vem perdendo terreno para a ascensão do capitalismo autoritário, cujos arroubos se aproximam cada vez mais do Ocidente – de acordo, é claro com os “valores” de cada país. O capitalismo de Putin com “valores russos” (demonstração brutal de poder), o capitalismo de Berlusconi com “valores italianos” (uma postura cómica)…

Tanto Putin quanto Berlusconi governam numa democracia que é cada vez mais reduzida para sua casca vazia e ritualizada e, a despeito da situação económica que se degrada rapidamente, ambos gozam de amplo (acima de dois terços dos votos) apoio popular. Não admira que sejam amigos pessoais: cada um deles apresenta tendência a escândalos ocasionais e “espontâneos” (que são, pelo menos no caso de Putin, preparados com antecedência para que se adaptem ao “caráter nacional” russo). De tempos em tempos, Putin gosta de usar um palavrão vulgar ou de soltar uma ameaça obscena – quando, há alguns anos, um jornalista ocidental lhe fez uma pergunta desagradável sobre a Chechénia, Putin retorquiu que, se ele ainda não fosse circuncisado, estava cordialmente convidado a visitar Moscou, onde há excelentes cirurgiões que poderiam circuncisar seu pénis com um corte um pouco mais profundo que o habitual…

Itália: laboratório da barbárie futura?

A imagem de um Berlusconi como um líder “humano, demasiado humano” aqui é crucial, já que a Itália de hoje é uma espécie de laboratório experimental do nosso futuro. Se nossa cena política se dividir entre a tecnocracia permissiva liberal e o fundamentalismo populista, a grande façanha de Berlusconi foi a de unir os dois, de ser os dois ao mesmo tempo. Talvez seja essa combinação que o torne invencível, ao menos no futuro próximo: os remanescentes da “esquerda” italiana agora o aceitam resignadamente como seu Destino. Essa silenciosa aceitação de Berlusconi como Destino é talvez o mais triste aspecto do seu reino: sua democracia é uma democracia daqueles que ganharam graças à inércia, que reinam por meio da desmoralização cínica.

A fórmula do “anti-semitismo razoável” foi mais bem elaborada em 1938 por Robert Brasillach, que se viu como um anti-semita “moderado”:

“Nós nos permitimos aplaudir Charlie Chaplin, um meio judeu, nos cinemas; admirar Proust, outro meio judeu; aplaudir Yehudi Menuhin, um judeu; e a voz de Hitler é carregada por ondas de rádio que receberam seu nome do judeu Hertz (…) Nós não queremos matar ninguém, nem queremos organizar nenhum pogrom. Mas também pensamos que a melhor maneira de conter as sempre imprevisíveis ações do anti-semitismo instintivo é organizar um anti-semitismo razoável.”

Não é essa a mesma atitude dos actuais governos europeus ao lidar com a “ameaça imigrante”? Depois de rigorosamente rejeitar o racismo populista directo como “irracional” e inaceitável para nossos padrões democráticos, eles endossam medidas “razoavelmente” racistas e protectoras… ou, como Brasillachs de hoje, ainda que alguns deles sejam social-democratas, nos dizem:

“Nós nos permitimos aplaudir os desportistas africanos e europeus orientais, os doutores asiáticos, os programadores de software indianos. Nós não queremos matar ninguém, nós não queremos organizar nenhum pogrom. Mas também pensamos que a melhor maneira de conter as sempre imprevisíveis e violentas medidas defensivas anti-imigrante é organizar uma protecção anti-imigrante razoável.”

Essa visão de desintoxicação do Vizinho apresenta uma clara passagem do barbarismo directo para o barbarismo berlusconiano com rosto humano.


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- Artigo publicado in:
Revista "CULT"
- Imagens: da net

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

« MULHER CORAGEM... E ... MÃE!... »


« M U L H E R »


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Mulher
Coragem e mãe
Que só tu sabes
Transmitir ao filho
A mensagem do Bem
Mulher amor
Que só tu és capaz
De sofrer a maior dor
Mulher
Que não és mãe
Mas que amas
Os filhos das outras mulheres
E a tua própria mãe
Mulher
Que sabes ser alguém
Que amas os filhos
E o teu companheiro
Como ninguém
Cumpres o lugar primeiro
E mereces o maior amor
Que o Universo tem!

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- Texto: do autor do blog.
- 1ª foto: do autor do blog
(um mural na Damaia-Amadora).
- 2ª foto: in Net.