segunda-feira, 19 de agosto de 2019

DÓLMEN DO ESPÍRITO SANTO DE ARCA

«DÓLMEN DO ESPÍRITO SANTO DE ARCA»

A Pedra de Arca 
Também conhecida localmente por Pedra d’Arca, o Dólmen de Arca foi cristianizado até no nome, onde lhe impuseram um Espírito Santo eclesiástico como apelido. É o mais importante monumento megalítico da Serra do Caramulo e seguramente um dos mais famosos da Beira Alta.

Uma anta onde todas as noites de São João se senta uma moira encantada, e que dali brinca com o destino dos homens que lá passam.

O Dólmen

O tempo fez com que hoje fosse composto de apenas três esteios verticais – os restantes, quebrados, ainda por lá deixaram vestígios. No total, deveriam ser sete, o número mágico e aquele que é mais usado na construção da câmara de muitas antas.
A distingui-la, observamos que uma das pedras que funciona como pilar está visivelmente inclinada. Mais do que é normal. Em cima, a pedra que serve de tampa, que conta com quatro metros de comprimento.
Do corredor já quase nada se nota. E a mamoa desapareceu com a dureza dos elementos. Ficou assim escancarada aos olhos de quem lá passa, bem altiva, fazendo mais de duas pessoas em altura, tornando-se fácil a passagem pelo seu interior, como se se tratasse de um simples túnel de granito.
Há quem saliente as parecenças do Dólmen de Arca com outros mais a nordeste, na província de Trás-os-Montes.

A Lenda do Dólmen de Arca

Dizem que quem construiu o Dólmen foi uma moira encantada – não confundir com uma moura sarracena, normalmente adoptada posteriormente em algumas lendas como forma de absorver este ser mitológico num novo contexto histórico. Segundo a lenda, a laje que passa por telhado foi transportada na cabeça dela, enquanto fiava uma roca com uma mão e transportava um bebé com outra.
A roca, é o elemento que mais é associado às moiras, tendo como tradução as voltas da vida, e colocando assim estas mulheres místicas como Deusas do destino. Já o recém-nascido que carrega é uma adição estranha, que não acontece tão frequentemente, e adensa um pouco a neblina sobre os significados ocultos deste activo da tradição oral.
Os locais acreditavam que todas as noites de S. João isto é, todas as noites de solstício de Verão, essa mesma moira encantada se sentava no topo do Dólmen a fiar, tendo à sua volta vários objectos de ouro. À passagem de cada homem, a moira perguntava de que gostava o passageiro mais, dos seus olhos ou do seu ouro. Ávida, a maioria escolhia o ouro, transformando-se em cinza por vingança da moira assim que a escolha era feita. Novamente, o duelo entre alma e matéria, com representação nos olhos e no oiro, respectivamente.
Moiras encantadas
O nome moira é enganador porque uma moira encantada não é uma moura no sentido histórico que recriamos na cabeça. Estamos no campo místico e, como tal, há dezenas de teorias que podemos atirar, não estando nenhuma delas exactamente correcta, porque não existe tal coisa como certo ou errado na imaginação humana. Verdade é que as moiras encantadas são um ser quase exclusivo de Portugal, e dizemos quase porque na Galiza também fazem parte do saber popular.

Origem das Moiras Encantadas

A sua origem, muito provavelmente, reside nas tribos indo-europeias, tendo sido fundidas posteriormente com o contexto cultural de várias épocas pelas quais este território ibérico passou. Mas parece existir uma afinidade entre as nossas moiras encantadas e outros seres místicos europeus, sempre femininos, sempre associados à água (tal como as Tágides que Camões lembrou, embora estas últimas se concentrem na zona da foz do Tejo), habitualmente encantadores e por vezes vingativos.
Hoje em dia, contam-se lendas que andam quase sempre à volta do mesmo: reis mouros que partiram, em fuga das espadas cristãs, e que cá deixaram filhas e sobrinhas. Estas, sozinhas, refugiaram-se em pontos inóspitos, quase sempre marcados por correntes de água, como grutas, fontes, ribeiros, lagos, poços, aguardando por alguém que as socorresse e acudisse os seus cantos hipnóticos. É também comum ouvirmos contar que estas fadas guardam tesouros deixados pelos sarracenos. Esta versão actual das moiras deve, contudo, ser vista com um certo distanciamento, dado tratar-se de um possível novo verniz atribuído a seres místicos mais antigos, divindades pagãs que sobreviveram à cristianização.
Podemos, com efeito, falar de seres milenares, de raiz indo-europeia, que se foram adaptando às novas realidades históricas. Como forma de o provar, podemos expor, logo à cabeça, os elos de ligação das moiras com as fadas celtas do folclore irlandês, que existem, sobretudo no lendário popular. Na verdade, é até mais frequente ouvirmos falar delas no norte do país (onde a cultura árabe praticamente não teve tempo de se difundir) do que no sul, o que vem igualmente comprovar que o ano zero destas fadas portuguesas pode estar bem para lá do período em que os mouros invadiram a península. Outro detalhe que contraria a sua origem árabe reside na cor dos seus cabelos que, na sua maioria das vezes, é relatado pelo povo como louro, tão louro que parece ouro, contrastando com os cabelos negros das árabes verdadeiramente ditas. 
Adiante-se também que a própria palavra moira é apresentada por alguns estudiosos como derivada do celta e não do latim, tratando-se de uma transformação do termo original marwo, estando desta forma conectada directamente com a espiritualidade céltica.
É possível, assim, que estejamos perante uma entidade que vai bem além da nacionalidade, e talvez seja preciso recuarmos até ao pensar das tribos lusitanas e galaicas, ou até antes dessas, para encontrarmos a semente de tudo isto.

Crenças acerca das Moiras Encantadas

São tidas como guardiãs dos mundos subterrâneos, sendo frequente estarem ligadas a superstições relacionadas com o interior da terra, as entranhas do solo, e de onde saem raras vezes, mas em datas simbólicas, como o são as de solstício – a noite de São João é alimentada por dezenas de lendas de moiras. É normal, portanto, que alguns investigadores as ponham como representações da terra-mãe, divindades indígenas que marcam os ciclos da terra onde se escondem. Têm, por vezes, uma face maligna, amaldiçoando quem as tenta desencantar ou quem sucumbe aos seus cantos.
Na imaginação popular, o acto mais marcante da moira encantada é o da fiação, ligado à roca, objecto que está intimamente ligado ao destino. A fiação simboliza, portanto, o escrever do destino (o seu, o da terra, e talvez o daqueles que se deixam encantar por ela). Um outro, de forte poder de sedução, é o pentear do seu cabelo longo e dourado, armadilha fácil para o homem desprevenido. E há mais: dádivas que se transformam em ouro, vindas de objectos como o pente, ou de frutos como o figo.
As moiras encantadas são tão parte de Portugal que não as conseguimos figurar em nenhum concelho, ou distrito, ou província.
 

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