sábado, 19 de maio de 2012

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ENTREVISTA ao JORNAL i


Mia Couto: "Era muito tímido, acho que me apaixonava três ou quatro vezes por dia". Este é o título da entrevista que o Mia deu a Susana Garrido, do jornal i, a propósito do seu último livro A Confissão da Leoa. Já entrevistei o Mia várias vezes e as conversas com ele são sempre muito tocantes. Hoje deixo aqui a entrevista que deu ao i, para quem tiver interesse e tempo para a ler. Vale a pena.
"Mia Couto é tão sereno e envolvente como os livros que escreve. Fala pausadamente, no sotaque cantado de África. E cada resposta é uma história. Convidou-nos para uma conversa num café rodeado de árvores, longe do barulho da cidade, onde nos contou o que significa ser irmão do meio e ter crescido numa casa de poesia, com a cabeça nas nuvens. António Emílio, que em criança decidiu chamar-se Mia, nasceu em Moçambique, na cidade da Beira, há 56 anos. Tem três filhos, dois deles biólogos, como o pai. Desistiu de medicina, foi jornalista e tornou-se biólogo. O seu novo livro, “A Confissão da Leoa”, foi inspirado pelos ataques de leões a pessoas em Moçambique, mas transformou--se noutra coisa a meio do caminho.

De onde vem o nome Mia?

Vem de um convívio que eu tinha com gatos, com dois, três anos. É óbvio que eu não me lembro, mas os meus pais contam-me, e têm fotos para comprovar, que eu comia com gatos, dormia com gatos, pensava que era um deles. Eram gatos vadios que iam para a nossa varanda e ali ficaram. E um dia decidi que queria ser chamado Mia. Eles aceitaram e passei a chamar-me assim. Acho que foi o meu primeiro acto de ficção.

Estudou Medicina durante dois anos mas desistiu para ser jornalista, em 1974. O que é que aconteceu?

Fui para Medicina porque queria ser psiquiatra. Mas depois desiludi-me porque tinha uma visão romântica, daquela coisa da psicanálise, do tempo em que se está com alguém de forma à terapêutica ser sobretudo relacional. Quando visitei o hospital psiquiátrico percebi que a conversa era outra. A clausura e a violência... e já estava muito ligado aos movimentos pela independência, fazia mais política do que estudava. E a Frelimo, que na altura ainda estava na clandestinidade, disse que eu devia ser jornalista, que devia infiltrar – o termo usado era este – e eu comecei a minha carreira como infiltrado.

E foi uma carreira duradoura.

Eles sugeriram que eu ficasse só um ano e depois retomava os estudos porque o país precisava de médicos, e acabei por ficar 11 anos. Foi óptimo, porque aprendi muito e uma ou outra coisa que foi muito importante para mim.

Chegou a ser director da Agência de Informação de Moçambique.

Na altura era preciso criar uma agência que desse luz à nossa luta. No momento em que ela estava a ser instalada viajei por todo o país para criar uma rede de contactos e correspondentes. Foi muito interessante.

Como estava o espírito moçambicano na altura?

Foi um momento épico, a quase totalidade do país estava a favor do que estava a acontecer. A Frelimo na altura era o país. O mal é que se convenceu de que era mesmo. Havia uma festa permanente, uma espécie de um sonho, em que tudo era possível. Mas é óbvio que depois esses momentos têm uma duração muito breve. Vivíamos numa espécie de nuvem e pôr os pés no chão é sempre duro.

Porque decidiu deixar o jornalismo? Ficou desiludido?

Foi uma aprendizagem mais que uma desilusão. Aprendi que esse projecto de mudar o mundo e torná-lo mais justo não funciona por modelos ou imposições externas. Tem de ter tempo e fazer-se de uma geração para a outra. Saí, primeiro por uma razão ideológica. Quando percebi que não era exactamente aquilo decidi que não queria ser cúmplice dessa mentira. Ainda voltei para Medicina mas durou dois dias, vi que não era o que queria fazer. Num país como aquele ser médico era uma obrigação que eu não podia suportar. Seria uma entrega missionária.

E foi estudar Biologia. Porquê?

Tinha essa paixão e pensei que poderia trabalhar com os grandes mamíferos nas reservas. Junto da minha cidade natal existe o parque Gorongosa, que é uma coisa extraordinária, e a minha paixão era trabalhar nesse ambiente, distante da cidade e das minhas próprias referências.

Aos 14 anos teve os seus primeiros poemas publicados no jornal. Em que é que um miúdo tão novo se inspira?

A maior parte da inspiração eram as meninas por quem eu me apaixonava. Platonicamente, porque eu era muito tímido, acho que me apaixonava três, quatro vezes por dia. Mas não tinha essa capacidade de sair de mim e de falar e de me apresentar ao mundo. Então vivia tudo isso em ficção. E lembro-me que um dos poemas publicados foi para o meu pai, que era poeta. E a minha mãe uma contadora de histórias.

Tem irmãos?

Tenho dois, eu sou o do meio. E tenho aquela síndrome de irmão do meio. Acreditava que era muito mal-amado, mas obviamente fui tão amado como os outros.

Mas porquê esse sentimento?

Lembro-me que... nós não éramos ricos. O meu pai era jornalista e teve de fugir de Portugal por razões políticas e nós tínhamos uma situação muito regrada. E era assim que eu pensava e não era verdade: quando havia bife, os maiores eram para o mais velho porque precisava e para o mais novo que estava a crescer e também precisava, e eu ficava com o pequeno. Mas o mais importante é que vivíamos numa casa da poesia, muito longe do mundo e da realidade, e isso marcou-nos muito a todos.

De que forma?

Vivíamos num mundo à parte. Os meus pais contavam muitas histórias, porque era uma maneira de visitarem Portugal. Conheci o país através de histórias.

Os seus pais são de onde?

São do Norte. O meu pai da zona do Porto e a minha mãe de Trás-os-Montes. Foram para Moçambique no princípio dos anos 50 e nós todos nascemos lá.

Em 1971 mudou-se da Beira, onde nasceu, para Maputo. Foi sozinho? Como foi a mudança?

Fui sozinho. Tinha 16 anos. Foi um renascimento. E para mim, que era um miúdo tímido, com muito pouco jeito para viver e que inventava uma vida à parte, foi óptimo. Uma escola de vida, de realidade. Tenho uma filha que vem agora estudar para Lisboa, tem 21 anos, e a grande questão para mim não é que ela aprenda, faça um curso, mas que aprenda a gerir o seu tempo, a valer-se a si própria, saiba conquistar aquilo de que precisa. Essa é a grande escola, não me importa que ela não tenha uma grande nota.

Disse que era tímido. Os seus irmãos aborreciam-no por isso?

Os meus pais usavam os meus irmãos como termo de comparação. “O teu irmão tem estes anos e já vai às compras sozinho e traz tudo certo.” O meu pai, sendo do Porto, chamava-me morcão. Eu era um tipo pasmado, distraído. A certa altura deu-me um bocado de jeito porque era dispensado das tarefas domésticas porque partia, estragava, perdia. Os meus irmãos olhavam para aquilo como uma meia verdade, este tipo já está a inventar para tirar partido disto...

Nos seus livros percebe-se que em Moçambique a ligação aos antepassados é muito importante. Também vive isso?

Vivo, mas de outra maneira. Tenho uma mistura de grandes coisas, de sistemas, com esse mundo não visível. Por um lado sou materialista, no sentido em que acredito na matéria. Não tenho religião, mas sou muito religioso.

Como é que isso funciona?

Não tenho crença num Deus particular, não sigo uma religião, mas preciso muito de estar em comunhão com o não visível. Uma pessoa quando pensa em não visível pensa logo em espíritos, mas por exemplo a beleza e a harmonia é aquilo que não está imediatamente visível. A religião africana, que nem tem nome, a gente chama-lhe animista mas não é, acaba por ser a tolerância. Em todas as religiões moçambicanas há uma coisa em comum que é rezar aos antepassados. Os deuses são os antepassados de cada um. Eu tenho os meus, você tem os seus e nenhum é melhor que o outro. Há coisas que existem em África que são muito felizes. Por exemplo, a ideia de que alguns animais têm alma. Isso ajuda a descentrar o homem. Achamos sempre que somos únicos e especiais, o topo da evolução, e não é nada disso.

Que animais, segundo os moçambicanos, têm alma?

A hiena, o macaco-cão, os hipopótamos, o leão. E rezam a esses espíritos dos animais. Gosto disso, põe-nos em pé de igualdade em termos espirituais, ou seja, aceitar que o outro tem espírito e que temos de lhe pedir favores. Isso é fantástico.

De que animal gosta mais?

Aquele com que eu tenho mais relação afectiva é o elefante. É um animal extraordinário. Nós exportamos a nossa maneira de olhar o mundo e eles, em muitas coisas, são parecidos connosco. A generosidade, a atenção. Mesmo depois de morrerem, e a ciência ainda não percebe bem como é que eles ficam dias sem abandonar o corpo do outro e percebem que está morto. Depois quando caminham e reconhecem a ossada de um elefante ficam ali às voltas. Há coisas que são estranhíssimas, a forma como cuidam das crianças, a maneira como organizam a sociedade em torno do apoio aos mais fracos... é muito bonito.

Voltando ao inexplicável e ao invisível, já lhe aconteceu alguma coisa dessas?

Já. Algumas vezes. E adoro não ter explicação para certas coisas. Depois de ter feito o último livro antes deste, o “Jesusalém”, fui a um parque natural e disseram-me que... esta história é um bocadinho longa, se quiser depois corte ou deite fora...

Conte na mesma.

Vou tentar abreviar o mais possível. No parque havia um velhote que era caçador, daqueles a sério, que antes de caçarem sonham com os animais. Andámos horas a pé e quando chegámos lá estava o fulano sentado. Eu pensei: “Já vi isto.” Ele estava numa esteira, com um facão a fazer uma zagaia. Não nos cumprimentou, não falou connosco. Só quando eu disse que era um contador de histórias, não ia dizer escritor, e que gostava de ouvir as dele, é que levantou os olhos e olhou para mim. Disse que no dia seguinte, às 4h, me levaria à gruta das hienas. Lá fui. Mostrou-me pegadas de animais, andámos assim toda a manhã. Depois almoçámos e perguntei-lhe se à noite podíamos fazer o mesmo para ver animais que só circulam à noite. Ele respondeu: “Você não percebeu nada. Sou cego, não vejo. Só vejo quando estou a caçar, e de noite não caço.” E eu lembrei--me que já tinha ouvido isto. Há uma frase minha no “Jesusalém”, dita por uma das personagens, um velho também, que diz: “Só vejo quando escrevo.” Isso marcou-me muito.

E o inexplicável não o aflige?

Aprendi a viver sem explicação. Ficamos com medo do que não podemos explicar e perdi esse medo. Não é preciso explicar ou prever tudo. Vivo bem nessa ignorância. Adoro.

Outra coisa que se percebe pelos seus livros é a condição inferior das mulheres em Moçambique. Há movimentos para alterar isso?

Há movimentos sim, e as mulheres não estão paradas nem precisam que os homens as vão salvar. Mas é uma coisa que ficou muito diluída. Havia a luta pela independência, pela libertação social e de repente esqueceram-se que as mulheres eram quase uma outra sociedade dentro daquela. Na luta da libertação houve um grande salto. Por exemplo, lembro-me de falar com mulheres que eram guerrilheiras e que nunca na vida pensaram que podiam usar calças, pegar numa arma e lutar ao lado dos homens.

E depois da guerra continuaram a poder usar calças?

Sim, continuaram. Mas a tentação de uma grande parte da sociedade masculina é evitar isso. No entanto, daqueles países ali à volta, como o Malaui, onde mulher que saia à rua de calças corre o risco de ser agredida, Moçambique está acima da média, isso posso dizer.

Mas é uma preocupação sua escrever sobre isso.

Sim, e sobre qualquer coisa que me aflija enquanto cidadão. Não tenho uma militância partidária, as minhas militâncias mantêm-se a favor de um mundo melhor.

Os seus livros estão traduzidos em muitas línguas. Como se traduz o encanto das suas palavras, que são muito específicas do português com influência moçambicana?

Não passa, em geral. Há casos em que o tradutor consegue encontrar alguma equivalência desse trabalho de criação linguística.

No processo de tradução está em contacto com os tradutores, eles abordam-no com muitas dúvidas?

Muitas. Tenho mais trabalho a acompanhar uma tradução que a fazer um livro novo, quase. Algumas vezes nota-se que não é um problema de ordem técnica, mas de ordem cultural. Às vezes com expressões idiomáticas que são do português de Portugal. Chegam a mandar perguntas como: “O que é o cu de Judas?” Outras são do contexto cultural de Moçambique, e isso não se explica por palavras, não é?

Disse que escrever um livro é extenuante e que pensa sempre que vai ser o último. É assim tão difícil?

É um grande prazer, mas é como se me esgotasse porque tenho de viver as vidas dos meus personagens. Então tenho de me desdobrar. Tenho de morrer se as minhas personagens morrem, tenho de casar se o personagem casa, sou mulher, sou velho. Há uma espécie de condensação. Vivi várias vidas na minha vida.

Como é o seu processo de escrita?

É caótico. Primeiro escuto, começa sempre por aí. Qualquer escritor é um escutador em primeiro lugar. Depois capturo o que me comoveu e me roubou o chão. Tem de ser algo quase que me dissolve. Uma frase, uma pessoa, um momento, tem de tomar posse de mim, fico perdido. Depois para dar um sentido às coisas tenho de sair de mim, e aí começa a história.

E a escrita? Fecha-se e dedica-se só ao livro?

Não, tenho uma ocupação profissional durante o dia. Mas escrevo em cadernos, assim como o seu, tudo o que me lembro. Infelizmente perco metade. Já podia ter escrito mais se não tivesse perdido, mas pronto. E escrevo à noite.

Neste novo livro, “A Confissão da Leoa”, o que o inspirou foram mesmo os ataques de leões em Moçambique?

Foi. Acabei por não escrever um livro sobre isso, mas o que desencadeou a história foi isso. Nunca pensei que fosse uma coisa para a qual eu estivesse tão pouco preparado. Conhecia alguns dos camponeses que foram atacados. Esta ideia de que podemos ser devorados por um bicho é um medo que despertou coisas anteriores a mim próprio, desde que somos humanos.

Mas não é muito comum os leões atacarem seres humanos?

Não, mas a verdade é que há muitos de-sequilíbrios. Os leões ficaram sem outras coisas para comer, matamos os pequenos animais que eles comiam. Outra razão é que a guerra faz com que esse respeito que os animais têm pelo homem seja quebrada. Na guerra há cadáveres que ficam sem sepultura e são comidos por feras. E de repente há ali alguma coisa que desperta.

E como foi viver com esse medo?

Vejo esse medo como uma coisa boa. Uma das coisas que tenho aprendido é sobre esta ilusão que temos da nossa própria dimensão. No momento em que saio do carro a pé e já não tenho um sinal da presença humana percebo que somos pequeninos, somos menos que os outros, os nossos parceiros animais. Mas o meu medo era diferente dos outros. O dos outros era um medo quase cósmico, tinham medo de uma entidade que às vezes tinha a forma de um leão. Aquilo foi uma espécie de punição. O meu medo era físico, de morrer atacado.



1 comentário:

José Freitas disse...

O LAZER É ÓPTIMO, O PIOR É QUANDO FALTA O SUBSÍDIO DE FÉRIAS.
Um programa recente da SIC Notícias disse mentiras sobre o caso «Equador», que tem frases inteiras copiadas de «Cette nuit la liberté».
MST é um «moralista» anti-Esquerda, refiro-me à Esquerda de facto e não à esquerda troikista.
A Censura anda muito activa nos comentários dos blogs. Espero que deixe passar este comentário.
Em www.anticolonial21.blogspot.com está a verdade inconveniente sobre a cópia de partes de «Cette nuit la liberté» por Miguel Sousa Tavares para o livro «Equador».