domingo, 30 de janeiro de 2011

« "O MILAGRE das FOLHAS" ... de CLARICE LISPECTOR »

 CLARICE  LISPECTOR
(1920-1977)
[clique AQUI para ler notas biográficas]

A Natureza é o Milagre



Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso basta-me como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que são de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos  quebram-se banalmente e pelas mãos das empregadas. 
 
Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.

Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.

Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento  cai-me uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzí-las a mim. Isso acontece-me tantas vezes que passei a considerar-me modestamente a escolhida das folhas.

Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.

Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.


Por Clarice Lispector - Crónica publicada no Jornal do Brasil em 04 de janeiro de 1969.




Nota do blog:

Lemos ontem, no Twitter, que há muitas pessoas a intitularem-se admiradoras da obra de Clarice Lispector, mas nunca leram nada dela. 
Faz pena que haja gente a pôr-se  em bicos de pés, exibindo uma cultura que não tem, contentando-se no faz de conta das aparências.
Tememos que se passe o mesmo com Saramago ou, até, com Fernando  Pessoa! 

Sem comentários: