sábado, 14 de agosto de 2010

« MARIA LAMAS traduziu "O FEITICEIRO de OZ" »

Obra traduzida para português por Maria Lamas
(1940)
ilustrada por Hugo Manuel
segundo o filme
da
'Metro-Goldwyn-Mayer'

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Ilustração recente do 'motor' Google, evocando
o
71º Aniversário
da Obra

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O Google, como sempre, faz evocações de matérias de grande relevo que apresenta no seu "motor de busca" lembrando, ou suscitando a curiosidade.
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Assim, depois de uma leve introdução sobre o livro «O Feiticeiro de Oz», aproveitaremos para homenagear também, a sua Tradutora, [Escritora e Jornalista] Maria Lamas.
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As crianças têm uma paixão, que pode dizer-se instintiva, pelas histórias maravilhosas e manifestamente irreais. As fadas de Grimm e Andersen sempre interessaram mais os cérebros e os corações infantis do que todas as criações humanas, por muito belas que elas sejam. Apesar disso, as histórias de fadas, que têm feito o encanto de todas as gerações, já eram classificadas de "fantasistas, por alguns organizadores de bibliotecas infantis da época.
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Assim, começaram a aparecer séries de livros para crianças onde já não havia "génios", anões ou fadas, nem aquelas aventuras terríveis, por vezes sangrentas, de que eles eram heróis, para dar o lugar, em cada história, a uma lição de moral. Porque a moral faz parte da educação infantil!
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O que a criança já desses finais dos anos trinta procurava nas histórias que lia era uma distracção, dispensando de bom grado os incidentes desagradáveis que raramente faltavam na literatura infantil de outros tempos.
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«O Feiticeiro de Oz» foi escrito para agradar à criança de então. Pretendeu ser uma história moderna de fadas, na qual o encanto, a alegria e o imprevisto substituiam os pesadelos e sustos de outras histórias 'maravilhosas'.

.O livro inspirou o filme do mesmo nome, realizado pela Metro - Goldwwyn - Mayer, o qual agora celebra o seu 71º aniversário. Ao seu autor, L. Frank Baum, foi reconhecido o valor de revolucionar a maneira de escrever literatura infantil, adaptando-se à evolução sociológica.
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A grande confirmação destes factos, está na decisão de Maria Lamas traduzir aquele autor incluindo esta obra, confirmando com a sua escolha, o positivo alcance social dos seus propósitos.



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Maria Lamas nasceu em Torres Novas em 1893. Criança contemplativa e reservada, recebeu uma educação de tipo tradicional no Convento de Santa Teresa de Jesus, que só viria a completar mais tarde, depois de casada. Saiu do colégio em 1910, por alturas da proclamação da República, acontecimento que referia como um dos marcos profundos da sua vida.

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No mesmo ano conheceu o oficial de cavalaria, Ribeiro da Fonseca com quem casaria um ano mais tarde. Apenas com dezassete anos, acompanha, então, o marido, que parte para África, onde permanece até 1920. A sua vivência de África reflecte-se no livro Confissões de Sílvia.

Regressa a Portugal depois do seu divórcio e fixa-se em Lisboa, onde se dedica ao jornalismo.

Começou por trabalhar numa agência de notícias, depois na revista ‘Civilização’ e finalmente no ‘Século’ onde entrou, pela mão de Ferreira de Castro, para dirigir o ‘Modas&Bordados’, uma típica revista para donas de casa, à qual Maria Lamas dedicará 20 anos da sua vida, tentando transformá-la em algo mais significativo.

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Manteve, durante anos, a famosa coluna ‘O Correio da Tia Filomena’, onde, dentro dos condicionalismos da censura, falava da condição das mulheres em Portugal.

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Sendo o jornal ‘O Século’ um dos expoentes importantes da cultura portuguesa na época, Maria Lamas encontrou aí uma plataforma de trabalho propícia para a sua personalidade dinâmica e afirmativa e desenvolveu vários projectos, organizando conferências, concertos e exposições.

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Tendo a mulher portuguesa como temática geral de fundo, ficaram, então, conhecidas algumas das exposições que promoveu e organizou, como por exemplo, a que apresentou teares do Minho, mesas de trabalho de mulheres como a Marquesa de Alorna e Carolina Michaelis, e onde recriou um conjunto de actividades femininas, ou a que foi a realizada com tapetes de Arraiolos fabricados pelas reclusas do estabelecimento prisional das Mónicas e que permitiu a estas algumas horas de liberdade, nos salões do ‘Século’, para apreciarem os seus trabalhos.

Sob o pseudónimo de Rosa Silvestre, escreveu obras infantis, como Caminho Luminoso e Para Além do Amor, entre outras.

Em 1945, Maria Lamas é eleita presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, associação fundada durante a I República e alvo de sistemática repressão pelo regime salazarista.

.O Conselho viria a ser encerrado algum tempo depois pela P.I.D.E., mas o cargo permite que Maria Lamas percorra o país e conheça melhor a condição das mulheres. Dessas viagens nasce o livro As Mulheres do meu País, que ficará como um referente histórico. Após esta obra publicaria ainda A Mulheres no Mundo e O Mundo dos Deuses e dos Heróis.

As suas opções pessoais e posicionamentos políticos valeram-lhe várias detenções ao longo da vida. A primeira teve lugar como consequência do seu apoio à candidatura do General Norton de Matos. É presa sob a acusação de propagar notícias falsas e pedir a libertação dos presos políticos. Esta seria apenas a primeira de outras detenções, que viriam a afectar profundamente a sua saúde e a determinar a sua condição de exilada política.

A partir de 1961, na qualidade de Membro do Conselho Mundial da Paz fixa-se, em exílio, durante oito anos, na cidade de Paris. É da janela do seu quarto no Hotel Saint-Michael que apoia os jovens durante o Maio de 1968, passando-lhes baldes de água para se protegerem dos gases lacrimogéneos.

Apesar dos seus oitenta anos, apoia ainda com todo o vigor a revolução do 25 de Abril, em Portugal.

Como directora honorária do ‘Modas&Bordados’, foi uma das primeiras pessoas a receber a Ordem da Liberdade das mãos do Presidente da República.

Maria Lamas faleceu em Évora aos noventa anos de idade deixando na memória de todos os que com ela conviveram a marca de uma personalidade rica, invulgar e influente, de forma duradoura, para a construção de uma visão nova e alargada do papel da mulher e da democracia.



1 comentário:

Luisa disse...

Uma referência para mim. Aprendi muito com ela.
Foi uma senhora, uma educadora de mulheres, tinha muito para ensinar. uma combatente pela liberdade. Uma Democrata!